domingo, 6 de novembro de 2011

9º Dia – San Pedro do Atacama-CHI



San Salvador de Jujuy-ARG x San Pedro de Atacama-CHI
Distância percorrida: 473 km

Acordamos cedo e saímos às 08:30h. Fiz um rápido briefing com a turma prá falar sobre os efeitos da altitude e a importância de, ao primeiro sinal de enjôo, que se pronunciasse para que pudéssemos nos prevenir (mascar folhas de coca, compradas em Jujuy). A Lu, quando se fala em passar mal, já começa a ter os sintomas…rsrsrs. E por isso ela já começou a mascar as folhas dali mesmo. Fomos subindo, subindo, subindo.


Tínhamos rodado uns 50 km quando paramos na beira da estrada para pedir informações sobre posto de combustível a umas meninas que ali estavam. Elas foram bastante gentis e atenciosas, e ainda nos deram um mapa para nos orientar. Elas nos disseram que deveríamos seguir em frente pela Ruta 9 no cruzamento com a Ruta 52 (que nos levará à San Pedro de Atacama-CHI), para irmos até Tilcara, a cerca de 40 km, onde encontraríamos um posto de combustível.
Abastecemos as motos na saída de Jujuy, mas era importante entrar na ruta 52 com tanques cheios pois dali até Susques não tem posto, e mesmo em Susques, não havia total garantia.



Assim fizemos, se deliciando com aquelas paisagens incríveis. Montanhas de todas as cores e relevos, com texturas das mais variadas. com formatos exóticos proveniente dos períodos geológicos terciários e quartenários. Um espetáculo imperdível. Engraçado como que a cada quilômetro rodado tudo se renovava... as Cordilheiras são gigantes... que legal finalmente conhecê-las de perto.



Desde o início da subida, que é logo na saída de Jujuy, a beleza é exuberante. Vale a pena cada quilômetro rodado. Ficamos deslumbrados com a magnitude do cenário, ainda bem que estávamos ali, naqueles lugares, naqueles instantes. 
A estrada deslizava pelo lado esquerdo de um vale seco mas que deixava claro que por ali, em algum momento já correram muitas águas. 



Passamos pela entrada para o Ruta 9 e seguimos para Tilcara.  Chegamos ao Portal de La Posta de Hornillos, que tem mais de 200 anos e que era um posto de parada de viajantes que unia o Alto Peru ao vice-reinado do Rio da Prata, e foi também um quartel general de vanguarda do exército de Independência Argentina, sendo restaurado e transformado num museu que recria com precisão o modo de viver dos séculos passados, e está dividida em três seções: “origem das postas”, “testemunho da Guerra da Independência” e “os meios de transporte”.


No vale seco ainda corre um rio
Mais adiante está o povoado de Maimará que fica na Quebrada da Humauaca, enormes cactus e diferente de tudo que a gente já viu. No passado, essa área foi povoada pelos índios maimaras e  tilcaras. Maimará significa “estrela que cai”.

Chegamos em Tilcara e logo encontramos um posto onde paramos para abastecimento.  É uma cidadezinha pequena, pertencente à província de Jujuy, cuja população não deve chegar a 10.000 habitantes. Umas das principais atrações de Tilcara são as ruinas de Pucara de Tilcara, uma fortaleza construida no século 12 pelos omaguacas. Hoje as ruinas estão sendo parcialmente reconstruída e são consideradas Monumento Nacional.



Abastecemos e voltamos ao cruzamento para entrarmos à direita, para a ruta 52. Para não haver dúvidas perguntamos a um senhor, num casebre também à direita, logo à frente. Direção certa, continua a subida. Agora começam a aparecer curvas e mais curvas, sempre subindo, e muitas pedras nestas curvas, o que requer cautela e atenção.



Alcançamos a cidade de Pumamarca, conhecida pelas multicores de suas montanhas. Aqui tem bastante opções de hospedagens, e boas, mas já estávamos decididos a não perder tempo ali (se é que se pode chamar a contemplação disso de "perda de tempo").



Vamos subindo, o ar já vai ficando cada vez mais rarefeito mas ainda não sentimos qualquer sintoma de enjôo ou algo do gênero. Passamso por um grupo de motociclistas que já iam descendo as cordilheiras. Passam também uns ciclistas. Nossa... o coração acelera... não pela altitude, mas pela emoção mesmo.
Estamos em êxtase... neste instante eu me emociono conversando comigo mesmo, lembrando-me do quanto sonhei e esperei. 

Vou procurando o ponto "X" daquela foto tradicional... e toma-lhe subida. Paramos para fotografar e agora sim percebemos o efeito das alturas. Caminhamos um pouco e sentimos como o ar é pouco. Uma corridinha? Nem pensar. 

Mais um pouco e chegamos!!! Choro mais uma vez, ainda que dentro do capacete, disfarçadamente. Chegar ali, do meu modo, como sempre desejei... ara demais. E ainda com quase a família toda... fica o desejo de voltar um dia com os outros dois filhos.




Não achei o ângulo ideal mas me contento com a visão que temos dali que já é suficiente prá me encher de alegria… é lindo, é gostoso, é cansativo, é prazeroso… não sei como falar disso, desse lugar, de maneira que se possa entender. Na verdade muitos desejam chegar ali mas só mesmo estando lá pra entender o que representa. 

Lá de cima pudemos ver um grupo de três motociclistas que vinha subindo, e algumas carretas, bem lentas. Encontramos também neste trecho, ciclistas descendo e alguns subindo. Cada um com sua loucura… isso é que é legal. Mas o que faz tudo aqui ser “louco” não é a coca não… é louco porque é louco… venha aqui quem duvida disso e vai sentir a mesma coisa.
Começo a mascar folha de coca a partir deste ponto. Me lembra folha de goiaba, que sempre gostei, desde criança. Não me parece nada diferente. Se faz mesmo efeito? Sei lá… mas não custa seguir o conselho milenar.


[Ver no mapa]
A subida em “zigzag” com curvas fechadíssimas onde tem o perigo de derrapagem devido as pedras (tipo brita, mas houve uma em que encontramos uma tipo uma bem grande, na mão oposta) que descem, e ao cruzamento com outros veículos já que você não tem visão do que vem em sentido contrário, exceto quando já está dentro da curva.

Nenhum de nós sentia efeito da altitude… até fazer algum esforço. Mas pudemos tirar fotos legais. É muito difícil expressar meus sentimentos naqueles momentos, fico atento a tudo a minha volta, tendo não perder uma visão mas é simplesmente impossível. É tudo muito imenso, e nosso olhar se perde no horizonte, nos fazendo perceber o quanto ainda estamos distante, por mais perto que já tenhamos chegado.



Subimos mais e chegamos a 4196 metros de altitude (pelo GPS), num ponto onde tem um marco dizendo 4170 m, como sendo o ponto máximo desta travessia.

O cansaço é notório quando se faz uma simples caminhada. Uma ligeira zonzeira, misturada com uma ligeira dor de cabeça. Nada fora do controle. Um ar gelado e gostoso. Uma mistura de sensações totalmente estranha… alcançamos o primeiro marco desta aventura.


Vários turistas parados também tirando fotos e comprando pequenas lembranças do local (artesanato regional).

Tiramos umas fotos… e eu, que sou o pior “barganhador” que conheço, sugeri que o fizessem na compra dos gorros… deu certo: dois por 50 pesos!!!

Vamos em frente e começa a descida. Viemos a 3500 metros quando pegamos um imenso plano e logo avistamos um imenso salar. Paramos para pedir informações num cruzamento de uma antiga estrada (RN40) onde encontramos um senhor, numa moto. Ele vem até nós e "conversamos". Seguimos adiante rumo ao deserto de sal. 


[Ver no mapa]
[Ver no mapa]

Entramos logo à esquerda mas antes quase fomos atropelados por um burrinho assustado. Se de fora parece um terreno escorregadio, lá dentro você descobre que é duro como pedra e bem áspero. Deito-me no chão... não tem preço. 




O receio de encontrar um piso instável logo acaba pois parece se estar andando sobre pedra. Paramos para umas fotos, comer umas barras de cereais e tomar água. É muito grande mesmo e não nos aventuramos mais, até porque o tempo é controlado… tememos o entardecer na chegada do Atacama, quando a temperatura cai bruscamente. Temos que andar mais e tentar chegar o mais cedo possível em San Pedro do Atacama.






Paramos em Susques para um breve descanço, abastecer as motos e nossos corpos.


[Ver no mapa]

Paramos na entrada e observamos o local. Parece um acampamento pronto para acabar... estavam realizando uma "pelada" bem disputada, num campinho de chão batido. Entramos em busca de combustível mas só encontramos um posto abandonado. Fomos informados que encontraríamos mais adiante e assim resolvemos seguir.


Avistamos um hotel do lado direito, entramos na estradinha e contornamos por trás do mesmo, que parecia fechado. Queríamos também comer alguma coisa mas naquele momento só tínhamos uma opção: ir adiante.


[Ver no mapa]

Logo adiante encontramos o Hotel Pastos Chicos, que mais tarde viríamos a descobrir que pertence a um argentino casado com uma brasileira. Ao lado, cerca de 100 metros, uma bomba de combustível. Abastecemos apenas a Fazer pois eu preferi comer primeiro. Fizemos um lanche (algumas empanadas, batatas fritas, biscoitos, refrigerante... e só) e descansamos um pouco. Ali tinha internet wifi, mas muito disputada pela Anna Paula e demais.

Seguimos rumo ao Atacama (cerca de 180 km daqui). Não teve jeito, a tarde começou a findar e a temperatura a cair. Vimos a mesma chegar a 5,5 graus, a 4833 metros de altitude. Vimos diversos pontos congelados (blocos de gelo) na beira da estrada… de arrepiar ainda mais. Chegamos à aduana argentina por volta das 17:00h, próxima à divisa Argentina/Chile. Ali tudo foi rápido e tranquilo.


Aduana argentina [Ver no mapa]

Eu sabia que este trecho era crítico em relação ao horário pois assim que o sol se fosse a temperatura cairia rapidamente. O colorido provocado pelo entardecer revelava paisagens belíssimas mas tínhamos que acelerar. Algumas paradas para algumas fotos... era imperdível o cenário. A temperatura já caia consideravelmente e o sol já ia se pondo. Eu estava realmente preocupado pois não queria pilotar à noite e sabia que com muito frio seria ainda pior.


 




De repente a noite caiu e já sentia a ponta de meus dedos congelando. Reduzimos a velocidade, um frio intenso... o termômetro do meu relógio (preso a um dos GPS) indicava 4°C. Pouco antes da noite chegar de vez ainda avistamos blocos de gelo em alguns pontos ao lado da estrada.

Ia ficando cada vez pior e a dor aumentava. Tentava manter os dedos em movimento mas não adiantava muito. Olhei o GPS e indicava 55 km até San Pedro. Tentei aguentar achando que a aduana estaria a 40km de San Pedro mas a mesma não apareceu. Entrei em crise de choro por tanta dor, mas pensei: tá bom, deve ser então com 30 km. Mas de novo chegamos a 30 km e a aduana não aparecia. Comecei a chorar de dor mais uma vez e não aguentei mais. Meus dedos doíam demais… doíam muito mesmo. Era insuportável. Paramos, tirei as luvas e quase peguei o motor com as mãos, aproximando-as perigosamente numa tentativa de aquecê-las. Fui para o banco do garupa enquanto o Wellington pilotava nos poucos quilômetros que restavam pra chegarmos a San Pedro (a aduana, na realidade, fica na entrada da cidade).

Fizemos os trâmites de entrada e logo encontramos um hotel , com a ajuda de um brasileiro do Clube XT600 (o Gaida), que Deus colocou no nosso caminho. Seis graus … e para tomar banho? Hahahaha… só eu e Wellington tivemos coragem.


Subindo as Cordilheiras
Minha recompensa

Descansando no Pastos Chicos (Susquez)
Chegamos no deserto de sal



Um vendedor solitário


 




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